segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Tinha terminado, então.

 
Mas se eu tivesse ficado, teria sido diferente? Melhor interromper o processo em meio: quando se conhece o fim, quando se sabe que doerá muito mais — por que ir em frente? Não há sentido: melhor escapar deixando uma lembrança qualquer, lenço esquecido numa gaveta, camisa jogada na cadeira, uma fotografia — qualquer coisa que depois de muito tempo a gente possa olhar e sorrir, mesmo sem saber por quê. Melhor do que não sobrar nada, e que esse nada seja áspero como um tempo perdido. Tinha terminado, então. Porque a gente, alguma coisa dentro da gente, sempre sabe exatamente quando termina. Mas de tudo isso, me ficaram coisas tão boas. Uma lembrança boa de você, uma vontade de cuidar melhor de mim, de ser melhor para mim e para os outros. De não morrer, de não sufocar, de continuar sentindo encantamento por alguma outra pessoa que o futuro trará, porque sempre traz, e então não repetir nenhum comportamento. Ser novo... 

Impressiona-me sempre o fato de certos escritores descreverem os sentimentos como se eu tivesse contado para ele o que sinto, o que passo, o que anseio. 
Impressiona-me, ainda mais, o fato da tristeza ser maior que a raiva, que o desengano, que a vontade dilacerante de arrancar o coração fora, guardá-lo numa torre de cristal, e viver apenas respirando, comendo, bebendo mecanicamente. 
Ok, a comida não andou descendo, ah, mas ela vai descer e a vida retornará ao meu corpo. 
Só não sei que dizer, por hora, da minha alma.
O texto é de Caio Fernando Abreu, e a foto, é de minha autoria, na época em que o que é terminado, tinha apenas começado.

Boa nova semana a todos!

Um comentário:

felipe disse...

Olaa Infante belo Blog achei tua cara

gostei deste texto tb poste outros tao simbólicos e sensíveis

abraços